EMERGÊNCIAS ABDOMINAIS CIRURGICAS EM PEDIATRIA

APENDICITE AGUDA NA CRIANÇA

VOLTAR PARA PAGINA ANTERIOR                      SAIR NO SINOPSE                      VOLTAR NA PAGINA PRINCIPAL

Sendo um assunto de síntese, a primeira questão é: quais são elas?

  1. apendicite aguda
  2. hérnia inguinal encarcerada
  3. estenose hipertrófica de piloro
  4. intussuscepção intestinal
  5. divertículo de Meckel
  6. obstrução por bolo de áscaris

REFERÊNCIAS

As seguintes afirmações sobre a apendicite aguda pediátrica são verdadeiras, EXCETO:

A. Na faixa etária pediátrica o tratamento é frequentemente conservador
B. Representa a urgência cirúrgica mais comum na criança
C. Pode ocorrer desde o período neonatal até a adolescência
D. É mais comum entre os 6 e 10 anos
E. O diagnóstico tardio pode resultar em complicações como, por exemplo, abscesso subfrênico

A idade faz diferença em casos de apendicite aguda. Por causa da sua apresentação rara em crianças menores de cinco anos, é frequentemente diagnosticada incorretamente, o que aumenta a morbidade. Apesar de sua apresentação clínica variar entre lactentes e pré-escolares, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas na proporção de apêndices perfurados nem na de complicações pós-operatórias.

A apendicite aguda representa a urgência cirúrgica mais comum na criança. Apendicite perfurada, em todo o mundo, é a principal causa cirúrgica geral de morte.

Pode ocorrer desde o período neonatal até a adolescência, embora seja mais comum entre os 6 e 10 anos.

A suspeita sempre é levantada para a criança com dor abdominal. Essa é uma queixa freqüente em consultórios de pediatria. O dilema é que, enquanto nem toda a dor abdominal é apendicite, foram relatados varios casos com sintomatologia frustra que se complicaram e até evoluiram mal.

O reconhecimento dos sinais e sintomas, tentar definir o início e características da dor, obviamente, é essencial. Nesse sentido, é útil relacionar o início do quadro com atividades escolares, brincadeiras preferidas, alimentação, hábitos intestinais e horário de sono.

O diagnóstico diferencial com outras doenças que cursam com dor abdominal é o grande divisor de aguas.

O diagnóstico, se tardio, predispõe a graves complicações como:

  • peritonite
  • abscesso pélvico
  • abscesso subfrênico
  • obstrução intestinal

Nas crianças maiores, o quadro clínico da apendicite é semelhante ao observado em adultos, mas nas crianças menores, principalmente recém-nascidos e lactentes, muitas vezes o quadro é incaracterístico.

Em crianças pequenas, ás vézes, os únicos dados que atestam a doença são a recusa alimentar e o abatimento.

A inspecção cuidadosa do abdômen pode detectar sinais de peritonite localizada. A palpação, sempre iniciada por local não doloroso, deve evitar movimentos bruscos e manobras que causem desconforto ou medo da dor. A pesquisa da descompressão brusca pode ser extremamente dolorosa e assustadora para a criança, por isso deve ser realizada por último.

A rigidez abdominal é global nos casos de peritonite generalizada. No quadrante inferior direito podemos achar ponto de rigidez, que é sinal muito significativo. Atenção não confundir a rigidez voluntária do choro com a rigidez involuntária da peritonite.

Podem ser úteis:

  • uso do estetoscópio pressionando levemente todo o abdômen
  • sedação, se o exame físico for difícil (criança se mantém muito irritada e não coopera)
  • exame de urina mostrando piúria, hematúria ou mesmo glicosúria e cetonúria
  • exame radiológico demonstrando fecalito

Em crianças pequenas o toque retal não tem muita valia, pois representa um procedimento doloroso e gera confusão com o quadro de dor abdominal. Portanto, este exame, se indicado, deve ser realizado com a máxima delicadeza.

O tratamento da apendicite aguda não é diferente daquele dispensado aos adultos. Entretanto, uma das maiores diferenças reside na escolha da incisão, que é transversa infra-umbilical direita ou de Davis, ao invés da paramediana ou da clássica incisão de McBurney.

FISIOPATOLOGIA

Acredita-se que é o mecanismo fisiopatológico preponderante de apendicite aguda:

A. a infecção parietal
B. a obstrução do lúmen
C. a necrose de pressão
D. a isquemia
E. o estrangulamento


Acredita-se que a obstrução do lúmen seja a maior causa de apendicite aguda.

O que pode causar essa obstrução de lumen?

  • fezes espessadas (fecalito e apendicolito)
  • hiperplasia linfoide
  • matéria vegetal ou sementes
  • parasitas
  • neoplasma

A inflamação do peritônio adjacente dá origem a dor localizada no quadrante inferior direito. A sensação de dor visceral experimentada pelo paciente como dor periumbilical é, na verdade, causada pela distensão luminal e pressão da parede.

A secreção continuada de muco contribui para o supercrescimento bacteriano e, como o comprimento do apendice é muito desproporcional com o lumen, chega-se, finalmente, numa isquemia mucosa subsequente da drenagem venosa e linfática, processo inflamatório localizado que pode evoluir para gangrena e perfuração.

A perfuração ocorre tipicamente após pelo menos 48 horas do início dos sintomas.

Neste momento há dois caminhos que o apendice vai percorrer:

  1. cavidade de abscesso envolvido pelo intestino delgado e pelo omento
  2. perfuração livre do apêndice na cavidade peritoneal, peritonite, formação subsequente de múltiplos abscessos intraperitoneais e choque séptico

BACTERIOLOGIA LOCAL:

Entre os pacientes com apendicite não perfurada aguda, as culturas do líquido peritoneal em geral são negativas e têm uso limitado.

Entre os pacientes com apendicite perfurada, as culturas do líquido peritoneal são mais suscetíveis de serem positivas, revelando bactérias colônicas com sensibilidades previsíveis

Ha indicios que o etanercept aumenta o perigo de apendicite aguda.

Esse é remédio duma proteína recombinante derivada do DNA, que se liga ao receptor do fator de necrose tumoral e bloqueia a interação deste com os receptores da superfície da célula. Nome comercial. Enbrel®. Apresentação. Estojos com kit para aplicação com 25 mg ou 50 mg. Usos. Artrite reumatoide e espondilite anquilosante moderadas a graves.

DIAGNOSTICO

NUNCA COLOCAR A APENDICITE ABAIXO DE SEGUNDO NO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DE DOR ABDOMINAL AGUDA EM UMA PESSOA ANTERIORMENTE SAUDÁVEL

O diagnóstico precoce ainda é o objetivo clínico mais importante em pacientes com suspeita de apendicite e pode ser feito primariamente com base no histórico e no exame físico na maioria dos casos. É o sintoma mais confiável de apendicite aguda:

A. a marcha anti-álgica - irradiação da dor abdominal na parte medial da coxa direita
B. a anorexia acompanhada por dor abdominal e febre
C. dor migratória de periumbilical para o quadrante inferior direito
D. ausência de movimentos intestinais no dia da apresentação
E. diferença de mais de 1°C entre a temperatura retal e axilar

Pois, vêmos!

  • todo paciente com dor abdominal aguda precisa ser incluido no diagnostico diferencial da apendicite aguda.
  • o objetivo clínico mais importante em pacientes com suspeita de apendicite: diagnóstico precoce. Ele se baseia somente no histórico e no exame físico na maioria dos casos.
  • o padrão clássico de dor migratória é o sintoma mais confiável de apendicite aguda. O que que é essa dor migratoria? A dor periumbilical, causada pela ativação dos neurônios aferentes viscerais, seguida por anorexia e náuseas que depois localiza-se no quadrante inferior direito.
  • crises de vômito pode ocorrer,  mas nao aqueles acessos repetidos de vômito que tipicamente acompanham a gastroenterite viral ou a obstrução do intestino delgado.
  • febre, seguida pelo desenvolvimento de leucocitose, é encontrada
  • a sensação de fome no paciente adulto com suspeita de apendicite não deve necessariamente ser um obstáculo à intervenção cirúrgica - nem todos os pacientes tornam-se anoréxicos
  • sintomas urinários ou hematúria microscópica, talvez devido à inflamação dos tecidos periapendiculares adjacentes ao ureter ou bexiga
  • íleo adinâmico e ausência de movimentos intestinais no dia da apresentação
  • pacientes ocasionais podem ter diarreia

Outros podem apresentar-se com obstrução do intestino delgado relacionada com a inflamação regional contígua. Desse modo, a apendicite precisa ser considerada como causa possível de obstrução do intestino delgado, em especial entre pacientes sem operação abdominal anterior

EXAME FISICO

Como encontramos os pacientes com apendicite?

Tipicamente esses pacientes não se sentem bem, parecem doentes e ficam deitados no leito, exigem um breve período de reposição com líquido e antibióticos antes da indução da anestesia. Geralmente não há febre alta, porém ela está em volta de 38°C.

Ao examinar o abdomen encontramos ruídos intestinais reduzidos e sensibilidade focal com retraimento voluntário e dor com localização exata da sensibilidade é diretamente sobre o ponto de McBurney, localizado a 1/3 da distância ao longo de uma linha traçada da espinha ilíaca superior anterior até o umbigo. Porém, não podemos ignorar o fato de apêndice normal ser móvel, então pode se tornar inflamado em qualquer ponto em um círculo de 360 graus ao redor da base do ceco.

Como o lugar da dor e o ponto mais critico são variados, utilizam-se "sinais", como:

  • sinal de Dunphy - tosse pode causar aumento da dor
  • sinal de Rovsing - dor no quadrante inferior direito durante a palpação do quadrante inferior esquerdo
  • sinal obturador - dor com rotação interna do quadril, sugerindo um apêndice pélvico
  • sinal do iliopsoas, dor na extensão do quadril direito, típico de um apêndice retrocecal

 

Em caso de perfuração apendicular um sintoma encontrado pode ser:

A. hematoquezia
B. elevação de temperatura acima de 39°
C. vômitos com aspecto fecaloide
D. coma
E. paraparesia


Caso o apêndice perfure:

  • a dor abdominal torna-se intensa e mais difusa
  • o espasmo muscular abdominal aumenta, produzindo rigidez
  • a dor pode melhorar um pouco por causa de alívio da distensão visceral
  • frequência cardíaca aumenta
  • há elevação de temperatura acima de 39°

LABORATORIO:

Entre os seguintes achados laboratoriais, qual é o mais provável argumento para descartar a apendicite aguda?

A. a hematúria microscópica
B. a hematúria macroscópica
C. a piúria
D. a contagem de leucócitos alta (>20.000/mL)
E. a contagem de leucócitos completamente normal

Sendo infecção, a contagem de leucócitos é elevada, com mais de 75% de neutrófilos na maioria dos pacientes. Isso é o normal, no entanto, há bastante relatos com contagem de leucócitos completamente normal e diferencial (cerca de 10% dos pacientes).

Uma contagem de leucócitos alta (> 20.000/mL) sugere apendicite complicada com gangrena ou perfuração.

A urinálise pode também ser útil na exclusão de pielonefrite ou nefrolitíase. Piúria mínima, frequentemente observada em mulheres idosas, não exclui apendicite do diagnóstico diferencial porque o ureter pode estar irritado adjacente ao apêndice inflamado. Embora a hematúria microscópica seja comum na apendicite, a hematúria macroscópica é incomum e pode indicar a presença de um cálculo renal.

Outros exames de sangue em geral não são úteis e não são indicados no paciente com suspeita de apendicite.

IMAGISTICA

TOMOGRAFIA COMPUTERIZADA DE ABDOMEN

A morbidade da apendicite perfurada excede muito a de uma apendicectomia negativa.

A tomografia computadorizada (TC) cortes de 5 mm, têm maior acurácia. Em geral, os achados na TC de apendicite aumentam com a gravidade da doença.

Entre pacientes com dor abdominal sensibilidade de cerca de 90% e uma especificidade de 80% a 90% para o diagnóstico de apendicite aguda.

O uso de TC com multidetectores de alta resolução (64-MDCT) com ou sem contraste oral ou retal resulta em mais de 95% de precisão no diagnóstico de apendicite aguda.

Aspecto CT encontrado frequentemente:

  • APENDICE:
    • distensão mais de 7 mm de diâmetro
    • espessamento circunferencial da parede e realce
    • aparência de um halo ou alvo
    • apendicolitos (o valor preditivo positivo do achado de um apendicolito em TC permanece alto em pacientes com dor abdominal)
  • ANEXOS:
    • gordura periapendicular retorcida
    • edema,
    • líquido peritoneal,
    • fleimão
    • abscesso periapendicular

 

A morbidade da apendicite perfurada excede muito a de uma apendicectomia negativa. Então, a CT deveria ser usada rotineiramente na avaliação diagnóstica?

A TC provou ser mais valiosa em pacientes idosos.

Em pacientes jovens do sexo masculino e dor no quadrante inferior direito típica, sensibilidade com sinais de inflamação a TC é desnecessária

Há riscos de reação alérgica ao contraste, nefropatia, pneumonite por aspiração e radiação ionizante. Este último apresenta maior risco em crianças nas quais a taxa de câncer induzido por radiação foi estimada em 0,18% após uma TC abdominal.

Então, tradicionalmente, não é recomendável. Novos estudos mostram, porém, que o uso liberal de TC imagem seccional provavelmente é justificado. Porque? Porque isso foi creditado com uma incidência decrescente de apendicectomia negativa. o estudo deve ser realizado apenas em situações em que ela tem um potencial significativo para alterar a gestão.

Continua a ser observado se a ressonância magnética (RM) irá substituir a TC como a modalidade preferida para a avaliação do apêndice em pacientes mais jovens.

ULTRASSONOGRAFIA

A ultrassonografia tem uma sensibilidade de cerca de 85% e uma especificidade de mais de 90%. É uma modalidade não invasiva que não exige preparação do paciente e evita exposição à radiação ionizante. Então, crianças e em gestantes com achados clínicos equivocados entendidos como sugestivos de apendicite aguda são os que mais vão se beneficiar.

 

Aspecto US encontrado frequentemente:

  • APENDICE:
    • apêndice de 7 mm ou mais no diâmetro anteroposterior
    • estrutura luminal não compressíva
    • parede espessada
    • vista em secção cruzada, referida como lesão-alvo
    • apendicolitos

 

Desvantagens da ultrassonografia:

  • precisão dependente do operador
  • dificuldade na interpretação das imagens
  • participação de um radiologista experiente,
  • pode não estar facilmente acessível à noite ou em fins de semana. O ultrassom pélvico pode ser especialmente útil na exclusão de doença pélvica, como abscesso tubo-ovariano ou torção ovariana, que pode mimetizar a apendicite aguda.

LAPAROSCOPIA

Na verdade, a laparoscopia diagnostica é um alternativa de reserva para aqueles cujo diagnóstico permanece inconclusivo. A finalidade seria proporcionar tanto um exame direto do apêndice e pesquisar na cavidade abdominal para outras possíveis causas da dor. A maioria dos pacientes com apendicite venha a ser precisamente diagnosticada.

Primariamente, essa tecnica realiza-se em mulheres em idade reprodutiva nas quais o ultrassom ou a TC pélvica pré-operatória falharam em estabelecer um diagnóstico. Comprovaram-se possíveis efeitos adversos de uma perfuração e peritonite sobre uma fertilidade futura.

Algoritmo Diagnóstico

ALGORITMO DIAGNOSTICO

O escore de Alvarado correlaciona sintomas, sinais e exames para o diagnóstico de apendicite aguda.

  • Baixo risco para apendicite: ≤2 pontos;
  • Risco intermediário: entre 3 e 6 pontos.
  • Alto risco para apendicite: ≥7 pontos;

 

 

POPULAÇÕES ESPECIAIS

Nos mais jovens e idosos o diagnóstico, particularmente difícil, é retardado com mais frequência e ocorre perfuração mais comumente. Os estudos de imagem são mais valorizados nestas categorias de idade, no entanto, mais a modalidade de imagem preferencial nesse grupo é a ultrassonografia. São varios estudos que apontam cânceres induzidos por radiação entre crianças.A RM pode ser útil para diferenciar achados ambíguos sejam ultrassonográficos ou clínicos.

  • Para idosos, a TC oferece a possibilidade de detectar a maior gama de condições, como diverticulite e processo malignos, que partilham o diagnóstico diferencial. Muitos pacientes demoram para procurar atendimento e o quadro sintomático pode ser atípico. A febre é incomum, a contagem de leucócitos pode ser normal e muitos pacientes idosos com apendicite não experimentam dor no quadrante inferior direito. Têm uma taxa muito mais alta de perfuração no momento da cirurgia devido ao retardo na intervenção cirúrgica. 13 Mais de 50% dos pacientes idosos com apendicite têm perfuração apendicular, em comparação com menos de 20% dos pacientes mais jovens.
    A diverticulite e a obstrução intestinal são diagnósticos incorretos comuns em pacientes idosos; o diagnóstico diferencial também inclui as doenças malignas do trato gastrointestinal e sistema reprodutor, úlceras perfuradas e colecistite. A TC tornou-se uma ferramenta valiosa na avaliação de dor abdominal entre pacientes idosos e seu uso reduziu a protelação pré-operatória.
  • Para adultos - considerar outras condições inflamatórias regionais, como pielonefrite, colite e diverticulite
  • Para neonatos - ultrassom é útil na avaliação de apendicite e outras emergências abdominais agudas, tais como estenose pilórica.
  • Para crianças em idade pré-escolar, o diagnóstico diferencial inclui intussuscepção, diverticulite de Meckel e gastroenterite aguda
  • Para crianças em idade escolar a diarreia é facil de diagnosticar, no entanto a linfadenite mesenterica entra no diagnostico diferencial, e isso pode ser feito com US de abdomen - apresentando linfonodos hipertrofiados na região do mesentério ileal, em conjunção com o espessamento da parede ileal e um apêndice normal. É importante lembrar que a linfadenomegalia mesentérica também pode ser o resultado de apendicite aguda.
  • Para mulheres - patologias pélvicas que podem mimetizar a apendicite aguda incluem doença inflamatória pélvica (DIP), abscesso tubo-ovariano, ruptura de cisto ovariano ou torção ovariana e gravidez ectópica.
  • Para gestantes - durante a gravidez a apendicite é a doença cirúrgica não obstétrica mais comum. Pior é que, como na gravidez há frequentemente náusea, vômito e anorexia, bem como a contagem de leucócitos elevadas. A localização da sensibilidade varia com a gestação: Após o quinto mês de gestação, o apêndice é deslocado superiormente e situa-se acima da crista ilíaca, e a ponta apendicular é deslocada medialmente no quadrante superior direito pelo útero grávido. A ultrassonografia é útil para estabelecer o diagnóstico e a localização do apêndice inflamado. Nos casos em que a ultrassonografia tem falhado, a RM tem sido utilizada com sucesso, evitando, assim, a exposição à radiação ionizante ao feto em desenvolvimento. A apendicectomia laparoscópica tem sido realizada no segundo trimestre de gravidez, embora faltem dados comparando esta abordagem com o procedimento aberto.

DIFERENCIAIS:

  • intussuscepção pode ser diferenciada pela natureza em cólica da dor, com períodos sem dor e a ausência de peritonite
  • diverticulite de Meckel é relativamente incomum, mas sua apresentação é semelhante à da apendicite, com a exceção de que a dor e a sensibilidade tipicamente se localizam na região periumbilical
  • gastroenterite de apendicite aguda em qualquer grupo etário. Usualmente, ocorrem diarreia e vômito precoce e persistentemente na gastroenterite, e a sensibilidade abdominal focal e sinais peritoneais são incomuns - ultrassonografia deve ser utilizada livremente
  • linfadenite mesentérica - geralmente em crianças em idade escolar, que pode ser causada por uma ampla variedade de infecções entéricas.
  • doença inflamatória intestinal deve ser suspeitada em crianças, particularmente se existir uma história de episódios recidivantes de dor abdominal
  • constipação e dor funcional o diagnóstico é apoiado por uma história recente de fezes duras, gretalmente, apesar de constipação possa estar associada à dor relativamente grave não existem sinais de irritação peritoneal, febre ou leucocitose. A dor funcional costuma ser um pouco mais branda, recidivante e autolimitada.
  • pielonefrites são tipicamente localizadas nos flancos e são acompanhadas por febre e contagem de leucometria elevada, bem como por piúria
  • colite geralmente é acompanhada de diarreia, e a localização típica da dor segue a trajetória do cólon.
  • colite de Crohn, a diarreia é incomum, mas em geral existe um padrão de sintomas recidivantes.
  • diverticulite do lado direito é tipicamente insidioso, se agravando em um período de dias, e envolve uma área mais abrangente do abdome inferior direito do que a apendicite

É recomendável discutir a importância da reavaliação entre 12 a 24 horas com os pais de uma criança com suspeita de ter gastroenterite caso a mesma apresente piora da dor abdominal ou outros sinais de deterioração clínica, porque a apendicite com diagnóstico incorreto permanece elevada na lista de suposições.

CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO:

Se um apêndice normal for observado, elimina-se a possibilidade de uma apendicite. Com essa finalidade o ultrassom pélvico é especialmente útil nessas pacientes.

TRATAMENTO

A maioria dos pacientes com apendicite aguda é tratada por remoção cirúrgica imediata do apêndice.

Estratagemas que funcionam:

  • breve período de reposição HE - assegurar a indução segura da anestesia geral
  • antibióticos pré-operatórios - impedem o desenvolvimento da flora colônica aeróbica e anaeróbica (uma dose única pré-operatória de antibióticos reduz as infecções pós-operatórias da ferida e a formação de abscesso intra-abdominal)
  • antibióticos intravenosos no período pós-operatório até o paciente estar afebril - portadores de apendicites perfuradas ou gangrenosas
  • apendicectomia aberta realizada com mais facilidade por uma incisão transversa do quadrante inferior direito (Davis-Rockey) ou uma incisão oblíqua (McArthur-McBurney)
  • apendicectomia laparoscópica - pacientes obesos têm menos dor e hospitalizações mais curtas após apendicectomia laparoscópica versus aberta

E já que abrimos a conversa sobre esse assunto, quais são as vantagens da laparoscopia?

  1. envolve custos mais elevados de sala de cirurgia
  2. menor duração da estadia hospitalar.
  3. taxas menores de infecções da ferida após a remoção laparoscópica do apêndice na apendicite perfurada
  4. melhor qualidade de vida duas semanas após a cirurgia
  5. taxas mais baixas de readmissão
  6. permite que o cirurgião examine o restante do abdome, inclusive a pelve, à procura de anormalidades

Estratagemas que não são indicadas, porque não têm vantagens:

  • antibióticos orais pósoperatórios - não reduzem adicionalmente a incidência de complicações infecciosas nesses pacientes.

TIPOS DE INCISÃO:

  • incisão de linha média subumbilical - grande fleimão ou dúvida diagnóstica
  • anestesia local + incisão transversa com divulsão dos músculos laterais do abdome sobre o ponto de McBurney - casos não complicados

Aos pacientes, prescreve-se uma dieta sem restrições e medicamento oral após a intervenção cirúrgica. A maioria dos pacientes com apendicite não perfurada recebe alta 24 horas após o procedimento.

APENDICITE PERFURADA

Nas áreas com dificuldade de acesso aos cuidados médicos (áreas rurais, idosos) a apendicite perfurada é mais frequente. Geralmente são pacientes em estado grave e exigir várias horas de reposição com líquido e eletrólitos antes da indução segura da anestesia geral e muito provavelmente exigem precocemente antibióticos de amplo espectro entendendo por isso tanto contra aeróbios quanto para anaeróbios.

Nas crianças há possibilidade, mesmo quando tem perfuração, a abordagem laparoscópica, com os mesmos beneficios de reduzir a incidência de infecções pós-operatórias e íleo e de associar-se com hospitalização mais curta e menores custos.

As mesmas vantagens são obtidas para os adultos, mas nesta faixa etária há maior risco de conversão para um procedimento aberto do que para pacientes com apendicite simples.

Os antibióticos podem ser alterados, se necessário, com base nos resultados da cultura e são mantidos até o paciente estar afebril após a intervenção cirúrgica. Se o procedimento foi convertido para cirurgia convencional, deixa-se a incisão aberta e reparada com fios de sutura de náilon depositados no lugar para fechamento primário retardado se possível após três a cinco dias de trocas. As portas dos trocarteres laparoscópicos são fechadas porque a incidência de infecção é baixa.

ABSCESSO APENDICULAR (PLASTRÃO)

Uma apendicite com massa e febre podem beneficiar-se de um período de tratamento não operatório, que reduz as complicações e a permanência no hospital.

Para avaliar o tamanho de qualquer abscesso presente estudos de imagem são úteis para confirmar o diagnóstico. Pacientes com abscessos volumosos, maiores que 4 a 6 cm, e especialmente naqueles pacientes com abscesso e febre alta, beneficiam-se da drenagem do abscesso. Isso pode ser conseguido pelo acesso transretal ou transvaginal ou por uma abordagem percutânea orientada por exames de imagem. Podem ser tratados inicialmente, com sucesso, com antibioticoterapia.

Os pacientes que continuam a ter febre e leucocitose após vários dias de tratamento não operatório têm probabilidade de necessitar da apendicectomia durante a mesma hospitalização, enquanto aqueles que melhoram de imediato podem aguardar algum tempo para apendicectomia.

ATENÇÃO

Os pacientes são considerados como tendo a denominada apendicite simples se a duração dos sintomas for inferior a 48 horas ou os estudos de imagem mostrarem ausência de um grande abscesso ou fleimão.

Esses pacientes tipicamente se submetem à apendicectomia.

Para pacientes com uma história atípica ou longa e para aqueles que se apresentam durante a fase de recuperação, são realizados estudos de imagem. TC é tipicamente selecionada para mulheres não grávidas e ultrassom para gestantes e crianças.

 

MISODOR, 05 06 2020

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

  1. URGÊNCIAS ABDOMINAIS NÃO TRAUMÁTICAS NA CRIANÇA (NON-TRAUMATIC ABDOMINAL EMERGENCIES IN CHILDREN) - VICENTE, Y. A.de M. V. A. et al.. Medicina, Ribeirão Preto, v. 28, n. 4, p. 619-24, out./dez., 1995, endereço eletrônico http://revista.fmrp.usp.br/1995/vol28n4/urgencias_abdominais_nao_traumaticas_crianca.pdf, acessado dia 01 06 2020;
  2. O APÊNDICE: JOHN MAA AND KIMBERLY S. KIRKWOOD EMBRIOLOGIA E ANATOMIA APENDICITE NEOPLASMAS - Sabiston tratado de cirurgia / Courtney M. Townsend, Jr. ... [et al.] ; [tradução Alexandre Maceri Midão ... et al.]. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2015 pag 3125.
  3. Barros, Elvino. Medicamentos na prática clínica [recurso eletrônico]/ Elvino Barros, Helena M. T. Barros. - Dados eletrônicos. - Porto Alegre : Artmed, 2010.
  4. ANEIROS, Belén et al. APENDICITE EM PEDIATRIA: A IDADE É IMPORTANTE. Rev. paul. pediatr. [online]. 2019, vol.37, n.3 [cited  2020-06-05], pp.318-324. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-05822019000300318&lng=en&nrm=iso>
     Epub June 19, 2019. ISSN 1984-0462.  https://doi.org/10.1590/1984-0462/;2019;37;3;00019.